Gênero: Comédia
Duração: 1h56min
Alemanha
Direção: David Wnendt
Roteiro: David Wnendt e Mizzi Meyer (baseado no romance de Timur Vermes)
Elenco principal: Oliver Masucci, Thomas M. Köppl, Marc-Marvin Israel
Sinopse: Adolf Hitler acorda em pleno século 21. A partir de então, inicia uma carreira de comediante.
À Karl Marx é atribuída a seguinte frase: "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". A partir dessa premissa, podemos analisar não somente Ele Está de Volta, mas o retorno do perigoso discurso conservador e ultra-nacionalista.
Adaptado do best-seller homônimo, o filme tem o argumento simples, porém curioso, de que Hitler simplesmente acorda no local onde ficava seu bunker em Berlim, em pleno 2014, sem se lembrar como ou por quê. Oliver Masucci dá vida a um Hitler caricato em meio a uma crise econômica e política, 70 anos após o fim da Segunda Guerra.
O longa lembra, em muitos momentos, de características de direção de Edgar Wright (Shaun of the Dead, Scott Pilgrim) e ao mesmo tempo, da comicidade de um mockumentary à la Larry Charles (Borat, Brüno). Inclui muitas referências, sejam históricas ou da cultura pop, como o documentário O Triunfo da Verdade (1935) ou o drama A Queda: os Últiimos dias de Hitler (2004) de Oliver Hirschbiegel, assim como a inserção de novas mídias, como o YouTube e as redes sociais. As sátiras formadas pelo choque cultural do ditador com a atualidade, inclusive, são pontos altos da comicidade do filme.
É interessante traçar paralelos com o mundo atual e sobre toda a onda conservadora que o toma. A história relata sobre como discursos reacionários e oportunistas ganham força em meio a crises. A metáfora é nítida: não é Hitler quem está de volta, é o tradicionalismo. O longa esmiúça características concretas da Europa atual, seja por conta de uma crise econômica ou por conta da migração, sobretudo de muçulmanos; a xenofobia e o discurso de "bons valores" e anticorrupção são os mesmos. O que assusta é a semelhança com os dias atuais, como a figura de "um Hitler" é aceita, se encaixa, ganha voz e consegue propagar seu discurso odioso.
Ele Está de Volta faz o espectador rir de nervoso, e debocha, em diversos momentos, da passividade com a qual o cidadão médio parece aceitar tal absurdo e alerta sobre como o discurso de ódio se protege pelo subterfúgio vazio de ser "apenas uma piada". Em um dos momentos no filme, um cidadão que vestia uma jaqueta bordada com dizeres anti-nazistas é linchado por pessoas que vestiam a camiseta da seleção de futebol alemã(!).
Não por coincidência, também se tem o ditador encarado como um comediante, tratando de assuntos delicados com o convencimento impetuoso de um articulador, ganhando espaço e força através da própria imprensa. Imprensa esta que divide a culpa por fazer ecoar a voz que reproduz não somente a discriminação como ideais retrógrados.
O desfecho carrega o mesmo tom que o restante do filme, uma comicidade que apavora. No entanto, de alguma forma, vai de encontro à assertiva inicialmente proposta: neste caso, a história se repete pela ignorância de uma população alienada, pela ganância de uma imprensa ardilosa e pelo oportunismo de figuras políticas desleais. Ou melhor, uma verdadeira farsa, mesmo.


