sábado, 30 de abril de 2016

Ele Está de Volta (Er Ist Wieder Da) (2015)

Ficha técnica
Gênero: Comédia
Duração: 1h56min
Alemanha

Direção: David Wnendt
Roteiro: David Wnendt e Mizzi Meyer (baseado no romance de Timur Vermes)
Elenco principal: Oliver MasucciThomas M. KöpplMarc-Marvin Israel 

Sinopse: Adolf Hitler acorda em pleno século 21. A partir de então, inicia uma carreira de comediante.

À Karl Marx é atribuída a seguinte frase: "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". A partir dessa premissa, podemos analisar não somente Ele Está de Volta, mas o retorno do perigoso discurso conservador e ultra-nacionalista.

Adaptado do best-seller homônimo, o filme tem o argumento simples, porém  curioso, de que Hitler simplesmente acorda no local onde ficava seu bunker em Berlim, em pleno 2014, sem se lembrar como ou por quê. Oliver Masucci dá vida a um Hitler caricato em meio a uma crise econômica e política, 70 anos após o fim da Segunda Guerra.

O longa lembra, em muitos momentos, de características de direção de Edgar Wright (Shaun of the Dead, Scott Pilgrim) e ao mesmo tempo, da comicidade de um mockumentary à la Larry Charles (Borat, Brüno)Inclui muitas referências, sejam históricas ou da cultura pop, como o documentário O Triunfo da Verdade (1935) ou o drama A Queda: os Últiimos dias de Hitler (2004) de Oliver Hirschbiegel, assim como a inserção de novas mídias, como o YouTube e as redes sociais. As sátiras formadas pelo choque cultural do ditador com a atualidade, inclusive, são pontos altos da comicidade do filme.

É interessante traçar paralelos com o mundo atual e sobre toda a onda conservadora que o toma. A história relata sobre como discursos reacionários e oportunistas ganham força em meio a crises. A metáfora é nítida: não é Hitler quem está de volta, é o tradicionalismo. O longa esmiúça características concretas da Europa atual, seja por conta de uma crise econômica ou por conta da migração, sobretudo de muçulmanos; a xenofobia e o discurso de "bons valores" e anticorrupção são os mesmos. O que assusta é a semelhança com os dias atuais, como a figura de "um Hitler" é aceita, se encaixa, ganha voz e consegue propagar seu discurso odioso.

Ele Está de Volta faz o espectador rir de nervoso, e debocha, em diversos momentos, da passividade com a qual o cidadão médio parece aceitar tal absurdo e alerta sobre como o discurso de ódio se protege pelo subterfúgio vazio de ser "apenas uma piada". Em um dos momentos no filme, um cidadão que vestia uma jaqueta bordada com dizeres anti-nazistas é linchado por pessoas que vestiam a camiseta da seleção de futebol alemã(!).

Não por coincidência, também se tem o ditador encarado como um comediante, tratando de assuntos delicados com o convencimento impetuoso de um articulador, ganhando espaço e força através da própria imprensa. Imprensa esta que divide a culpa por fazer ecoar a voz que reproduz não somente a discriminação como ideais retrógrados.

O desfecho carrega o mesmo tom que o restante do filme, uma comicidade que apavora. No entanto, de alguma forma, vai de encontro à assertiva inicialmente proposta: neste caso, a história se repete pela ignorância de uma população alienada, pela ganância de uma imprensa ardilosa e pelo oportunismo de figuras políticas desleais. Ou melhor, uma verdadeira farsa, mesmo.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Boneco do Mal (The Boy) (2016)

Ficha técnica
Gênero: Terror/Suspense
Duração: 1h37min
EUA

Direção: William Brent Bell
Roteiro: Stacey Menear
Elenco principalLauren CohanRupert Evans e James Russell

Sinopse: Greta, uma jovem mulher norte-americana, busca fugir de seu passado conturbado, e acaba aceitando um emprego em uma pequena aldeia na Inglaterra como babá para o filho de oito anos de um casal rico, enquanto eles tiram um tempo de férias. Os surpreendentemente idosos Sr. e Sra. Heelshire possuem uma lista de regras estritas para ela seguir na hora de cuidar de seu filho, Brahms; e eles misteriosamente avisam Greta que não seguir as regras de forma precisa pode resultar em algo terrível.

Lançado no início de fevereiro, logo após a temporada de festivais, Boneco do Mal (The Boy) é um filme que cumpre a tabela. Não traz grandes novidades mas pega carona nos sucessos comerciais de Anabelle  e Invocação do Mal (ambos de 2014), películas com certas similaridades. Fez um ótimo anúncio comercial e se pagou no fim de semana de sua estréia nos EUA, entretanto, ir bem nas bilheterias não é sinônimo de qualidade.

Toda a premissa do filme é elaborada em seu primeiro ato. Greta Evans (Lauren Cohan) é contratada para tomar conta do filho de um excêntrico casal. O garoto, Brahms é, entretanto, um boneco de porcelana e Greta deve cumprir uma série de exigências para cuidar do brinquedo. Quando deixa de cumpri-las, acontecimentos bizarros começam a acontecer na casa.

Para o público, seu início pode parecer lento e desagradável. As atuações do elenco de apoio talvez deixem a desejar ou, talvez, seja a dificuldade do filme em incorporar seu próprio argumento. Trata-se de um terror popularizado: repleto de jumpscares e closes que indicam tensão, muitos dos clichês contemporâneos de filmes do gênero enfraquecem a obra.

A ambientação, ainda que lugar-comum, talvez seja um ponto positivo, pois inclui o espectador em uma certa atmosfera psicológica que o faz especular: loucura? No entanto, o clima se quebra logo no início do terceiro ato, e é então que se tem uma positiva surpresa. A reviravolta chega a aturdir, ainda que não convença em absoluto, é positiva por "inovar".

Não há que se esmiuçar um longa que se prende a um plot-twist e outros estereótipos do gênero. Boneco do Mal poderá até agradar alguns -- ora, a obra, não necessariamente não possui o compromisso de revolucionar os filmes de terror -- mas talvez, como consequência, caia no limbo dos filmes de terror.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Boa Noite, Mamãe (Good Night Mommy) (2014)

Ficha técnica
Gênero: Drama/Terror/Suspense
Duração: 1h39min
Áustria

Direção e roteiro: Veronika Franz, Severin Fiala
Elenco principal: Lukas Schwarz, Elias Schwarz e Susanne Wuest

Sinopse: Dois irmãos gêmeos se mudam para uma nova casa com sua mãe após ela ser submetida a uma cirurgia de mudança de face, mas por baixo de suas ataduras, está alguém que os irmãos não reconhecem.

Boa Noite Mamãe é um terror austríaco lançado no circuito em 2014, mas que só chegou aos cinemas brasileiros no início de 2016. O longa traz para o gênero o tema maternidade de volta às cenas, ainda que o trate com outra perspectiva: temos a história dos gêmeos Lukas e Elias (interpretado por seus homônimos Lukas Schwarz e Elias Schwarz) e sua mãe (Susanne Wuest), que fora submetida a uma cirurgia de alteração facial e, a quem só somos devidamente apresentados após o ato inicial, devido ao fato de a personagem ter seu rosto coberto por curativos. A premissa é, inicialmente simples porém gera uma ótima história: os garotos duvidam de que a pessoa por baixo das ataduras seja, de fato, sua mãe.

Entretanto, o filme não nos despeja a trama de uma só vez e vamos, aos poucos, desenrolando os nós que permeiam a história. A relação estabelecida pelo núcleo familiar é totalmente instável e entrega uma montagem cheia de reviravoltas, e, neste aspecto, marca um ponto positivo: lida com a (des)confiança entre entes de um grupo, demonstrando como essa familiaridade pode ser frágil quando colocada na tênue linha entre amor fraternal e sentimento de aprisionamento.

A construção do roteiro é bastante cuidadosa e faz bem por não expor demais antes do momento certo, por isso, trata-se de um filme cheio de metáforas e sutilezas. A cinematografia, por si, apresenta uma bela e aterrorizante ambientação, e deu ao filme o prêmio de melhor direção de fotografia do Cinema Europeu de 2015. Espaços amplos, closes certeiros e a contribuição do bom uso do silêncio dão à película uma boa carga de suspense. E, se algum momento parecer demasiado lento, não o faz por mal.

Boa Noite, Mamãe certamente não é apenas um terror que busca atrair seus espectadores pelos sustos e pelo sangue. Trata-se de um filme que explora o horror real; requer uma "atenção a mais", e, mesmo que não possa evitar um ou outro clichê, entrega um resultado bastante positivo.